Capítulo
XIII – Não saiba a vossa mão esquerda o que dê a vossa mão
direita.
A piedade
A piedade é a virtude que
mais vos aproxima dos anjos; é a irmã da caridade, que vos conduz a Deus. Ah! deixai que o vosso coração se enterneça ante o espetáculo das misérias e dos sofrimentos dos vossos
semelhantes. Vossas lágrimas são um bálsamo que lhes derramais nas feridas e, quando, por bondosa simpatia, chegais a lhes proporcionar a esperança e a resignação, que encanto não experimentais! Tem um certo amargor, é certo, esse encanto, porque nasce ao lado da desgraça; mas não tendo o sabor acre dos gozos mundanos, também não traz as pungentes decepções do vazio que estes últimos deixam após si. Envolve-o penetrante suavidade que enche de júbilo a alma. A piedade, a piedade bem sentida é amor; amor é
devotamento; devotamento é o olvido de si mesmo e esse olvido, essa abnegação
em favor dos desgraçados, é a virtude por excelência, a que em toda a sua vida
praticou o divino Messias e ensinou na sua doutrina tão santa e tão sublime.
Quando esta doutrina for
restabelecida na sua pureza primitiva, quando todos os povos se lhe submeterem,
ela tornará feliz a Terra, fazendo que reinem aí a concórdia, a paz e o amor.
Não saiba a
vossa mão esquerda o que dê a vossa mão direita
O sentimento mais
apropriado a fazer que progridais, domando em vós o egoísmo e o orgulho, aquele que dispõe vossa alma à humildade, à beneficência e ao amor do próximo, é a piedade! piedade que vos comove até as entranhas à vista dos sofrimentos de vossos irmãos, que vos impele a lhes estender a mão para socorrê-los e vos arranca lágrimas de simpatia.
Nunca, portanto, abafeis nos vossos corações essas emoções celestes
não procedais como esses egoístas endurecidos que se afastam dos aflitos,
porque o espetáculo de suas misérias lhes perturbaria por instantes a existência álacre. Temei conservar-vos indiferentes, quando puderdes ser úteis. A tranquilidade comprada à custa de uma indiferença culposa é a tranquilidade do Mar Morto, no fundo de cujas águas se escondem a vasa fétida e
a corrupção.
Quão longe, no entanto,
se acha a piedade de causar o distúrbio e o aborrecimento de que se arreceia o egoísta! Sem dúvida, ao contato da desgraça de outrem, a alma, voltando-se para si mesma, experimenta um confrangimento natural e profundo, que põe em vibração todo o ser e o abala penosamente. Grande, porém, é a compensação, quando chegais adar coragem e esperança a um irmão infeliz que se enternece ao aperto
de uma mão amiga e cujo olhar, úmido, por vezes, de emoção e de reconhecimento,
para vós se dirige docemente, antes de se fixar no Céu em agradecimento por lhe
ter enviado um consolador, um amparo. A piedade é o melancólico, mas celeste
precursor da caridade, primeira das virtudes que a tem por irmã e cujos
benefícios ela prepara e enobrece. – Miguel. (Bordeaux, 1862.)
Várzea
Grande 19 de maio de 2020